As corridas do passado: Itália 2001


Quando a Formula 1 chega a paragens italianas, havia duas corridas – na Hungria – que Michael Schumacher já tinha vencido o seu quarto título mundial e igualado os títulos de Alain Prost. E na corrida anterior, na Belgica, não só tinha vencido pela sétima vez na temporada, como era agora o piloto com o maior numero de vitórias de sempre, com 52 corridas. Tinha demorado precisamente dez anos para alcançar tal feito, e com um avanço de quase cinquenta pontos sobre o segundo classificado, o escocês David Coulthard, ele prometia que não ia ficar por ali, pois queria construir um reinado longo e dominador para ele e para a Scuderia.

No paddock italiano, havia alterações: a Prost colocava no seu carro o primeio piloto checo de sempre, Thomas Enge, em substituição de Luciano Burti, acidentado na corrida anterior, em Spa-Francochamps, após um ambate com o Jaguar de Eddie Irvine. E na Minardi, sempre necessitada de dinheiro, o lugar de outro brasileiro, Tarso Marques, era cedido a favor do primeiro piloto malaio: Alex Yoong.

Com o campeonato mais do que decidido, a corrida iria ser uma festa de consagração para a Ferrari, pois estavam a correr “em casa”, e queriam fazer bonito. Mas o mundo lá fora decidiu espreitar a Formula 1: na terça-feira, 11 de setembro, uma série de atentados em Nova Iorque e Washington, onde mais de vinte terroristas usaram três aviões sequestrados para embater no World Trade Center e no Pentágono, causando espanto e terror quem via tudo pela televisão e ao vivo. Um quarto avião também tinha sido desviado, em direção a Washington, mas a ação dos passageiros tinha levado a que este acabasse por despenhar na Pennsilvânia.

A Formula 1 não ficara indiferente aos eventos dessa terça-feira: a Ferrari decidiu tirar a publicidade dos seus carros e macacões, correr com um nariz negro em sinal de luto e respeito pelas pessoas que tinham perdido familiares. A Jaguar fizera o mesmo nos seus carros enquanto que, em contraste, a Jordan decidiu meter uma grande bandeira americana nos carros de Jarno Trulli e Jean Alesi.

Na qualificação, o colombiano Juan Pablo Monotoya tinha sido o mais rápido, conseguindo assim a sua terceira pole-position da sua carreira. Ao seu lado tinha o Ferrari de Rubens Barrichello, que conseguira bater o seu companheiro Schumacher, que apenas ficara com o terceiro posto, na frente do seu irmão Ralf Schumacher. Jarno Trulli era o quinto, seguido pelo McLaren de David Coulthard, que ficara na frente de Mika Hakkinen, o sétimo da grelha. Nick Heidfeld era o oitavo, e a fechar o “top ten” estavam o segundo Sauber de Kimi Raikonnen e o Jaguar do espanhol Pedro de la Rosa.

Se os acontecimentos da terça-feira anterior não tinham sido suficientemente chocantes, nessa tarde de sábado, outro evento numa corrida não longe dali iria afetar fortemente o “paddock”: na oval alemã de Lausitzring, onde a CART fazia a sua segunda corrida numa oval europeia, o italiano Alessandro Zanardi tinha tido um forte embate no carro do canadiano Alex Tagliani que lhe arrancou a frente do seu carro e as suas pernas, ficando entre a vida e a morte. E era nesse ambiente soturno que todos estavam preparados para correr naquele domingo, 16 de setembro. E os pilotos diziam à imprensa presente que queriam fazer tudo para que a corrida fosse sem incidentes.

Na manhã da partida, Michael Schumacher decidiu percorrer o “paddock” com um pacto na mão: queria que a primeira volta fosse uma espécie de procissão como se estivessem atrás do “safety car”, pois para além de todos os motivos anteriores, havia outro mais presente: no ano anterior tinha havido a morte de um bombeiro devido à colisão na Variante della Roggia, a meio da primeira volta. Contudo, tal pacto não foi adiante porque o canadiano Jacques Villeneuve e o patrão da Benetton, Flávio Briatore, decidiram votar contra.

Ainda antes da luz verde, Giancarlo Fisichella e Nick Heidfeld tiveram problemas nos seus carros e tiveram de largar do “pitlane”. E na partida, Montoya disparou na liderança e lá ficou, sem que o Ferrari de Rubens Barrichello pudesse incomodar sériamente, já que mesmo sem um pacto de não-agressão entre os pilotos, a Ferrari iria fazer as coisas na mesma.

Mas os dois pilotos da frente estavam com duas estratégias: Montoya só iria parar uma vez, enquanto que Barrichello tinha uma estratégias de duas paragens. Cedo o brasileiro passou para a frente, enquanto que nas McLaren, Coulthard acabava cedo a sua corrida, mais concretamente na volta sete, quando o seu motor Mercedes explodiu. Na volta 11, Barrichello vai às boxes para reabastecer, mas este se transforma num desastre, perdendo quase dez segundos a favor de Montoya, que estava a fazer uma corrida exemplar.

Quando voltou, Barrichello estava atrás do colombiano, mas apesar dos pneus mais frescos, não conseguia apanhá-lo, porque o seu carro estava cada vez mais leve. Entretanto, na volta 19, a caixa de velocidades de Mika Hakkinen encravava, culminando o final de semana de pesadelo que estava a ser o da McLaren. Mas para o finlandês pouco importava, pois estava ali a gozar a sua última temporada na Formula 1, apesar de dizer a toda a gente que iria tirar um período sabático.

No final, Montoya rumou tranquilamente à vitória, a sua estreia no lugar mais alto do pódio na Formula 1 e a primeira de um colombiano. Rubens Barrichello era o segundo, enquanto que o lugar mais baixo do pódio pertencia a outro Williams, a de Ralf Schumacher. Nos restantes lugares pontuáveis ficava Michael Schumacher – a primeira vez que pontuava fora do pódio – o Jaguar de Pedro de la Rosa e o BAR-Honda de Jacques Villeneuve.

Depois das máquinas se desligarem e da cerimónia do pódio, no final da corrida, todos estavam aliviados por nada ter acontecido. Schumacher resumiu tudo numa frase: “Ainda bem que este final de semana acabou. O mais importante de tudo é que nada de mau aconteceu nesta tarde.” E dali a 15 dias, o circo da Formula 1 iria correr em Indianápolis, e todos questionavam como iriam entrar nuns Estados Unidos que ainda estavam a absorver o choque dos eventos daquela terça-feira.

Imagens: Arquivo Cahier


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